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sábado, 4 de junho de 2016

Em Angola, a Odebrecht no espelho | Pública

Em Angola, a Odebrecht no espelho | Pública





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    AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO





    Em Angola, a Odebrecht no espelho

    Como a empreiteira brasileira tornou-se sustentáculo do regime autoritário de José Eduardo dos Santos

    Do seu amplo escritório no oitavo andar do prédio que sedia a
    operação da Odebrecht em Angola, Antônio Carlos Dahia Blando observa,
    numa manhã de setembro de 2015, as avenidas circulares do bairro de
    Talatona, a zona sul de Luanda, apinhada de Toyotas 4×4 prateados que
    margeiam os prédios de luxo, envidraçados, ao lado dos quais um exército
    de gruas anuncia os empreendimentos que estão por vir. “Luanda Sul é
    nossa criação”, diz. Pouco antes, ao chegar ao local, o executivo solta
    galanteios a todas as funcionárias – faz piadinhas, beija as mãos da
    secretária, faz questão de tomar os braços da jornalista – enquanto
    avisa: “Tenho que sair às 11h30, reunião com o ministro da Administração
    do Território. Um homem muito bom, muito capaz mesmo”.



    Dahia, superintendente da gigante brasileira em Angola, é um homem
    moreno, de óculos, com um sorriso suave que encarna o “espírito de
    servir”, mandamento número um da companhia que tem no país africano sua
    segunda maior operação fora do Brasil. O mandamento, ali, significa
    servir bem o seu principal cliente, o governo do presidente José Eduardo
    dos Santos, no poder há 36 anos. Segundo maior exportador de petróleo
    da África, Angola é tido como um dos países mais corruptos do mundo, tem quase 36% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, e possui a pior taxa de mortalidade infantil, ao mesmo tempo que a filha primogênita do presidente, Isabel dos Santos, é celebrada como a mulher mais rica do continente.



    No país desde 1984, ano em que assinou o contrato para construir a
    hidrelétrica de Capanda, a Odebrecht conquistou uma invejável fidelidade
    do Estado angolano. Construiu muitas das principais obras estratégicas
    depois da independência e é, ainda hoje, a maior empregadora privada do
    país, com 12 mil funcionários, além de 5 mil subcontratados, segundo seu
    relatório anual. Em 2014, US$ 1 em cada US$ 10 dólares gastos pelo
    governo em infraestrutura foi parar nos bolsos da Odebrecht. “Ano
    passado o governo angolano investiu US$ 15 bilhões em infraestrutura. A
    gente teve uma atuação importante: US$ 1,5 bilhão é um número
    significativo, basicamente em função de projetos grandes como Cambambe,
    Laúca e a refinaria de Lobito”, detalha Dahia.



    Cambambe é a segunda maior hidrelétrica do país, em processo de
    renovação e ampliação. A refinaria de Lobito traz a promessa de
    finalmente Angola produzir derivados do petróleo em vez de apenas
    exportar o óleo cru. Laúca é a cereja do bolo: maior obra de construção
    civil no país, promete dobrar a capacidade de fornecimento de energia.
    Hoje, apenas 30% da população tem luz, e mesmo assim recalcitrante,
    obrigando quase toda a economia a rodar à base de geradores. “A gente
    cresceu cerca de 30%, 35% graças aos empreendimentos da área de
    energia”, diz Dahia. “Mas nesses 30 anos foram os pequenos projetos onde
    colocamos a bandeira Odebrecht, Odebrecht, Odebrecht que fizeram a
    nossa história.”


    Essas “bandeiras” estão por toda parte. Os varredores das ruas do
    bairro da Maianga, no centro de Luanda, trazem uniformes laranja com o
    logotipo da Odebrecht. Nos outdoors por toda a cidade, o logo ilustra
    anúncios de condomínios de luxo onde uma casa pode custar US$ 3 milhões
    para os filhos da pequena elite e diretores de multinacionais
    estrangeiras. Na baía de Luanda, diante das demolições de antigas
    favelas, ou musseques, lá está de novo a placa da Odebrecht,
    contratada para construir a nova avenida Marginal. Aliás, boa parte da
    capital foi erguida por ela: construiu as principais estradas de Luanda –
    Via Expressa, Estrada do Samba, autoestrada periférica – e fez o parco
    sistema de saneamento e distribuição de água. A rede de supermercados
    Nosso Super, espalhada por todo o país, é sua concessão. Ela é uma das
    donas da maior operação diamantífera angolana, a quarta maior mina de
    diamante kimberlito do mundo. É dela o único açúcar fabricado no país –
    da marca “Kapanda”, embalado em saquinhos brancos e vermelhos, produto
    da usina Biocom, uma sociedade com a estatal Sonangol e um influente
    general.



    Dahia despede-se da reportagem lendo com candura um trecho da TEO, Tecnologia Empresarial Odebrecht,
    livro escrito pelo patriarca Norberto Odebrecht no século passado, a
    bíblia do núcleo duro do conglomerado empresarial, que ele guarda num
    armário do escritório, com anotações nos cantinhos das páginas. Em três
    volumes, a TEO versa sobre “a tarefa empresarial de identificar,
    conquistar, satisfazer o cliente e com este criar laços duradouros” e
    ensina: “O ato mais nobre de um Ser Humano é servir a seu semelhante”.



    Todo ano o patrono Emílio Odebrecht se reúne com o presidente
    angolano no palácio, em Luanda, por cerca de duas horas para prestar
    contas sobre os negócios em andamento. Suas declarações à saída são
    assunto de manchete dos veículos oficiais. “Uma vez ao ano nos
    encontramos com o Presidente da República, para o ponto de situação das
    metas traçadas no ano anterior e perspectivar os próximos 12 meses”,
    afirmou ao portal Angop em setembro de 2014.



    A Odebrecht integra também a Assembleia Geral
    e o Conselho Fiscal da Fundação Eduardo dos Santos, a Fesa, a maior ONG
    de Angola, fundada pelo mandatário com a missão de consolidar o
    progresso social, cultural e científico. Além da companhia brasileira, o
    conselho fiscal da fundação é integrado por três estatais angolanas e a
    petrolífera Texaco, entre outras. “Não vemos conflito de interesses,
    tendo em vista que a Fesa é uma instituição sem fins lucrativos voltada
    para o desenvolvimento do povo angolano, sob diversas vertentes, e que
    não está subordinada ao governo”, diz a empresa.



    A parceria de longa data rendeu uma homenagem inesperada em meados de 2013, quando o reservado presidente, na sua primeira entrevista
    em 22 anos, citou uma – apenas uma – empresa: a Odebrecht. “De Angola
    saíram muitos escravos que foram enviados para o Brasil, portanto, há
    uma participação angolana na formação da nação brasileira. Há afinidades
    de vário tipo, por conseguinte há relações pessoais entre os dois
    países. Por isso as relações são de forte amizade, de alguma
    cumplicidade. E são relações econômicas que se estendem em várias áreas
    de atividade. Estão aqui empresas fortes, como sublinhou, como é o caso
    da Odebrecht, desde os tempos mais difíceis da guerra e que tem dado uma
    contribuição enorme no processo de construção de Angola. Participou no
    grande esforço de reconstrução nacional e agora tem procurado reinvestir
    parte do que ganha cá para realizar vários negócios que são úteis,
    naturalmente, para Angola.” O estatal Jornal de Angola, único diário do país, em sua versão impressa suprimiu a menção “relações pessoais” e “alguma cumplicidade”.









    Alguma cumplicidade

    “O dia foi de festa em Capanda. Nessa época do ano, ao amanhecer uma
    espécie de névoa encobre a barragem e as águas revoltas do rio Kwanza e
    cria uma atmosfera de sonho. Os que se tinham empenhado com teimosia
    para a realização daquele projeto faziam contas à vida e não despregavam
    a vista do local. Angola estava finalmente em paz e havia a perspectiva
    de desenvolvimento com disponibilidade de energia.” Assim o vistoso
    livro publicado pela Odebrecht em celebração dos 25 anos no país
    descreveu o enchimento do reservatório da hidrelétrica de Capanda em
    2002. As cerimônias não acabaram aí; em 2005, duramente os eventos de
    celebração de 30 anos desde a independência, José Eduardo dos Santos e
    diversos ministros inauguraram a primeira fase da barragem da hidrelétrica. Cinco anos depois, em 2010, o presidente voltou para inaugurar o arranque das primeiras turbinas.



    A promessa, como já se viu, não se concretizou: mais de dois terços
    da população angolana seguem sem luz. Mas a história de Capanda,
    primeira grande obra da empreiteira no país, ainda hoje é recontada em
    tons épicos na literatura institucional da Odebrecht.



    Para ganhar o contrato, a empresa contou com apoio da ditadura
    brasileira durante os governos dos generais Ernesto Geisel e João
    Batista Figueiredo. “É uma empreiteira brasileira que cresceu na
    ditadura. O grande salto da Odebrecht foi início da década de 1970,
    durante o governo Geisel”, explica o historiador Pedro Campos, autor do
    livro Estranhas catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar.
    Ele mostra que a construção das usinas nucleares de Angra valeu à
    Odebrecht a confiança dos generais. “São obras do escopo da segurança
    nacional, contratos que os militares não deixariam para qualquer um. Era
    a empresa em que os militares confiavam para fazer isso.”



    Em 1975, o governo Geisel havia sido o primeiro a reconhecer a
    independência de Angola. Ao mesmo tempo, a Odebrecht começava a se
    internacionalizar, a partir de um contrato no Peru. Mas Capanda foi um
    salto e tanto: para viabilizá-la, a Odebrecht literalmente convenceu o
    governo ditatorial a financiar a operação.



    “A superação da questão do financiamento da obra foi alcançada quando
    Marc Altit, que atuava como diretor de desenvolvimento de negócios na
    área internacional da Odebrecht, estruturou um contrato inovador, com
    muitas variáveis e um mecanismo de garantia: o petróleo produzido em
    Angola. A ideia foi apresentada ao governo brasileiro, que, embora
    resistisse à novidade, via com bons olhos a perspectiva de contar com
    uma fonte fiável de petróleo numa fase em que os preços internacionais
    estavam elevados e havia grande disputa pelo produto”, relata Luiz
    Almeida, que na época era vice-presidente de Desenvolvimento
    Internacional da Odebrecht, em uma publicação institucional. O atual membro
    do Conselho de Administração prossegue: “Em abril de 1983, o ministro
    Delfim – o mais importante membro da comitiva do presidente do Brasil,
    João Batista Figueiredo, em visita oficial ao México – fez a gentileza
    de me receber no hotel em que estava hospedado, em Cancún, e afirmou
    que, ao regressar ao Brasil, formalizaria a autorização para a operação
    de crédito para Capanda, a ser compensado com barter de petróleo angolano para a Petrobras.” Segundo a tese de doutorado
    de Joveta José, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a
    linha de crédito brasileira para a construção de Capanda acabou
    absorvendo recursos superiores a US$ 1,5 bilhão. Outros contratos
    semelhantes haviam sido estruturados pela ditadura no Iraque. O país
    enviava petróleo e recebia em troca obras de infraestrutura.



    Do lado de lá, a Odebrecht convenceu o governo angolano de que seria
    mais proveitoso construir uma nova hidrelétrica do que ampliar a de
    Cambambe, já em funcionamento. “Trabalhamos para mostrar ao governo
    angolano que o investimento prioritário deveria ser em Capanda. Quando a
    decisão foi tomada, fui convidado ao gabinete do ministro do Plano,
    Lopo do Nascimento, que me deu pessoalmente a notícia de que Capanda
    tinha sido colocada como prioridade, porque fora convencido por nossos
    argumentos”, descreve Luiz Almeida. Outro argumento irrecusável era a
    oferta do governo russo de financiar os serviços e o equipamento enviado
    pela empresa estatal Technoexport, que já era sócia da Odebrecht no
    Peru. Faltava ainda algo essencial: construir o próprio cliente. Luiz
    relata ter convencido o ministro de Energia e Petróleos a estabelecer
    uma autarquia estatal para ser responsável pela obra. E facilitou um
    convênio com a estatal Furnas para auxiliar tecnicamente na
    implementação da nova entidade, o Gamek – Gabinete de Aproveitamento do
    Médio Kwanza.



    Angola estava, àquela altura, em meio a uma guerra civil em que
    diferentes guerrilhas disputavam o controle do território. A Unita,
    apoiada pelas forças do governo do apartheid, na África do Sul, e pelos
    Estados Unidos, controlava parte do leste do país, enquanto o governo
    marxista do MPLA tinha controle sobre a capital, Luanda, com apoio
    cubano. Uma empreitada no interior do país só seria possível com amplo
    apoio do lado que seria o vencedor militar da guerra. “Autorizado por
    Emílio Odebrecht, liguei para o coronel António dos Santos França
    N’Dalu, então chefe do Estado-Maior das Fapla [Forças Armadas Populares
    de Libertação de Angola], amigo com quem eu compartilhava conversas e
    histórias”, prossegue o relato de Luiz Almeida. N’Dalu se tornaria o
    “general dos generais”, servindo duas vezes como vice-ministro da
    Defesa.



    “Após um breve silêncio, o coronel N’Dalu afirmou que implementaria
    as medidas necessárias para a segurança da construção da usina. E assim,
    finalmente, chegamos a Capanda”, descreve Luiz Almeida. N’Dalu
    estabeleceu um gabinete militar comandado pelo capitão Jorge Silva
    “Sapo”, membro do Estado-Maior da Frente Centro da Fapla. Com a nova posição estratégica, “Sapo” foi promovido a major.



    Capanda era alvo estratégico na guerra e chegou a ser interrompida
    duas vezes. Em novembro de 1992, foi ocupada por tropas da Unita. Oito
    funcionários foram sequestrados, e as negociações para a soltura foram
    encabeçadas pelo próprio Emílio Odebrecht, com apoio da Cruz Vermelha e
    de dois aviões Hércules C-130 das Forças Armadas Brasileiras.



    Em 1997, as equipes da Odebrecht voltaram à área para recuperar o
    estaleiro. Em 1999 a obra foi novamente interrompida por causa de
    bombardeios. Retomadas em 2000, culminaram com o enchimento do
    reservatório em 2002, no fim da guerra civil. No meio tempo, Jorge Silva
    “Sapo” tornou-se ainda mais que um aliado da Odebrecht – em, 1992 o
    angolano ingressou
    nos quadros da Odebrecht e foi enviado para Cuba, para trabalhar num
    posto de confiança junto ao Superintendente da empresa no país.



    Membros da Odebrecht e das Fapla visitam o local onde Capanda será construída. No centro, Jorge Silva "Sapo" . Foto: Odebrecht
    Membros da Odebrecht e das Fapla visitam o local onde Capanda será construída. No centro, Jorge Silva “Sapo” . Foto: Odebrecht
    Leia mais: Medo e controle em Angola


    Leia mais: A equação Brasileira


    Assista à websérie: É proibido falar em Angola


    Na guerra pelos diamantes

    Quatro anos depois do início das obras de construção de Capanda, a
    Odebrecht iniciava seu segundo negócio no país, em uma indústria que a
    empresa até hoje opera só em Angola – a exploração de diamantes. Os
    episódios dessa atuação merecem bem menos destaque na propaganda
    institucional, mas permitem entender a profunda conexão da empresa
    brasileira com o alto escalão e o generalato angolanos.



    Um dos poucos relatos foi dado por Paulo Lacerda, diretor da
    Odebrecht em Angola entre 1988 e 1992: “Com o objetivo de ampliar a
    geração de divisas para Angola, apresentamos à Endiama [estatal
    diamantífera] o projeto de Luzamba, para exploração de minas de
    diamantes na Lunda Norte, contrato que foi assinado em abril de 1991.
    Após 16 meses, em agosto de 1992, a produção de Luzamba duplicou a
    exportação de diamantes de Angola”, diz.



    A operação durou apenas 15 meses, até ser alvo da Unita. Numa área de
    3 quilômetros no rio Cuango, era a maior unidade de produção de
    diamantes do país, mostrando-se importante fonte de divisas durante a
    guerra civil – e marcando de vez a empresa brasileira como não apenas
    parceira do governo, mas parte interessada na guerra.



    Na mesma época, relata Renato Baiardi, um executivo antigo, de
    confiança da família Odebrecht, que hoje é membro do Conselho de
    Administração. “Quando o conflito foi retomado em 1992, perguntei às
    autoridades locais como poderíamos apoiá-los. Eles pediram que
    enviássemos com urgência alimentos para a tropa e a população,
    especialmente de Luanda. Contratamos, então, um Boeing 747 nos Estados
    Unidos, que pousou em Luanda, carregado de alimentos, para atender ao
    pedido”, diz ele. “Esse caso é útil para demonstrar que nosso
    relacionamento com Angola extrapola qualquer outro, o que nos faz
    comprometidos e nos leva também a investir no país.”



    O controle das áreas diamantíferas pela Unita, após a expulsão dos
    brasileiros, foi o que deu sobrevida à guerra civil angolana após a
    derrota do regime do apartheid.



    Expulsa de Luzamba, no final daquele mesmo ano, a Odebrecht entrou
    definitivamente no ramo diamantífero ao assinar em 1993 o contrato para a
    implantação da mina de Catoca, em outra região, na Lunda Sul, da qual
    participa até hoje, com 16,4%, em sociedade com a Endiama, o grupo
    estatal russo Alrosa e o grupo israelense Lev Leviev. Catoca, hoje, é o
    primeiro kimberlito em exploração em Angola e a quarta maior mina de
    diamantes desse tipo do mundo. Segundo relatório de 2014,
    Catoca vendeu 82 milhões de quilates, respondendo por 84,7% do volume
    de produção em Angola, e teve um lucro líquido de US$ 126 milhões.



    Segundo o pesquisador Mathias Alencastro, autor da tese de doutorado A política do diamante na periferia de Angola,
    da Universidade de Oxford, a entrada da Odebrecht na mina de Catoca
    obedecia a uma demanda estratégica do MPLA. “Era uma região tomada por
    produção artesanal, porque Catoca tinha a particularidade de os
    diamantes estarem muito perto da superfície. O MPLA precisava de uma
    empresa que fosse o braço industrial do Exército. O que eles criaram ali
    é um mecanismo de governança do território que passava pelo controle da
    mina de diamantes. Basicamente o MPLA angolano privatizou para a
    Odebrecht a responsabilidade de reconstruir o Estado nessa região.”



    Para Mathias, a entrada no ramo dos diamantes foi fundamental para a
    trajetória da empreiteira. “A Odebrecht no final da guerra civil era
    considerada uma ‘muleta’ do Estado. Isso se deve essencialmente a dois
    grandes, digamos, sacrifícios, que foram Capanda e Catoca. Esse legado
    de legitimação do Estado angolano no momento em que ele era considerado
    por investidores internacionais não só marxista-leninista, mas
    beligerante, é muito mais importante do que o legado industrial da
    Odebrecht.”



    Se há poucas informações sobre a atuação da Odebrecht em Catoca, ainda menos se sabe sobre outra parceria com a Mapa Lunda NorteEndiama,
    a Sociedade de Desenvolvimento Mineiro de Angola (SDM), instituída por
    decreto presidencial em 25 de agosto de 1995 (Baixe aqui o decreto e a
    ata de constrituição da SDM: Página 1, 2 e 3),
    numa divisão de 50% para cada empresa – a Odebrecht investiu US$ 20
    milhões na época. A SDM assumiu as antigas operações de Luzamba
    abandonadas em 1992, na região de Lunda Norte. A área, de cerca de 3 mil km2, foi durante anos o segundo maior produtor de diamantes de Angola.



    A partir de 2006, violações brutais de direitos humanos na área
    administrada pela SDM foram sistematicamente denunciadas pelo jornalista
    investigativo angolano Rafael Marques. Um de seus relatórios, “Operação
    Kissonde”, relata como, em fevereiro de 2005, empresas privadas de
    segurança assumiram a responsabilidade de combater o garimpo ilegal no
    Cuango. A empresa Alpha-5, então contratada pela SDM, controlava a sede
    municipal, punindo de maneira perversa quaisquer garimpeiros artesanais
    que encontrasse. “No caso particular da Alfa-5, documentam-se vários
    casos em que as vítimas são obrigadas a ter relações homossexuais entre
    si, tendo chegado ao extremo de se forçar um genro a violar o seu
    sogro”, diz o relatório (baixe a íntegra aqui). Todas as violações são
    identificadas com data, local e nome das vítimas e testemunhas. Os
    relatos são assombrosos. Algumas vítimas contam ter sido obrigadas a
    trabalhar nuas dentro da sede da empresa mineira da Odebrecht. Outras
    mencionaram ter sido obrigadas a fazer sexo entre si por “33 efetivos da
    Alfa-5, 7 soldados das Forças Armadas e 5 elementos da Segurança
    Industrial da SDM”. A Alpha-5, na época, mantinha um posto de controle
    dentro da sede da SDM.



    A Odebrecht negou veementemente as denúncias. “Em relação às
    operações da empresa mineira SDM na região do Cuango, na província de
    Lunda Norte, é necessário mencionar que nem a SDM nem a Odebrecht têm
    nenhum registro da ocorrência de situações descritas como ‘violações de
    direitos humanos’ no relatório”, afirmou em comunicado o então superintendente em Angola, Luiz Mameri. Questionada pela Pública sobre a sociedade, a Odebrecht afirmou que a sociedade ainda existe, mas está inativa há cinco anos. Em 2006, a mina se exauriu. Ninguém foi punido pelos abusos de direitos humanos registrados.



    Em outro investimento diamantífero que figura em passant na literatura
    institucional da Odebrecht, a empresa brasileira manteve sociedade com
    dois filhos do presidente angolano – Welwitschea José dos Santos, a
    Tchizé, e José Eduardo Paulino dos Santos, o cantor Córeon Dú – e um
    genro, conforme comprovam registros do Diário da República (baixe aqui, em PDF) e do registro da empresa (baixe aqui) obtidos pela Pública.
    A lei angolana estabelece que toda empresa estrangeira tem que ter um
    sócio nacional. Aprovado por decreto presidencial em 27 de maio de 2005,
    o Consórcio Muanga era uma sociedade entre a Endiama (51%), a Odebrecht
    Mining Services (19%), a SDM (20%) e a Di Oro Sociedade de Negócios
    Limitada (10%), dos filhos de José Eduardo dos Santos. A empresa, que
    antes era do ramo de “alta-costura”, adaptou-se para a assinatura do
    contrato, que previa um investimento mínimo de US$ 10 milhões das duas
    empresas da Odebrecht, que assumiram “inteiramente o investimento por
    sua conta e risco”. Em 2010, o consórcio recebeu, por decreto
    presidencial, mais dois anos para operar a mina. A produção de diamante
    aluvião, que chegou a ser anunciada
    para 2006, nunca se concretizou, segundo a Odebrecht. Procurada pela
    reportagem, a empresa negou a sociedade: “A Odebrecht não é, nem nunca
    foi, sócia dos filhos do Presidente da República de Angola. As campanhas
    de pesquisa diamantífera realizadas no Projeto Muanga demonstraram a
    sua inviabilidade económica e a concessão não foi desenvolvida”,
    escreveu a assessoria de comunicação.



    “Os generais, hoje, são milionários. E eles entraram nos negócios
    através do petróleo e dos diamantes. As empresas privadas que operavam
    nas Lundas eram dos generais. Foi uma privatização da segurança do
    Estado”, explica Mathias Alencastro.



    É o caso do general António dos Santos França N’Dalu, o “general dos
    generais”, antigo conhecido da direção da Odebrecht, que, depois de ter
    servido como embaixador nos Estados Unidos, virou homem de negócios,
    atuando, em especial, no ramo de diamantes. Desde 2005, N’Dalu é o presidente não executivo
    da operação angolana da De Beers, a maior empresa diamantífera do
    mundo. É um dos sócios da empresa de segurança Teleservice (10% das
    ações) com outros generais, empresa acusada de violações de direitos
    humanos na região das Lundas. A Teleservice chegou a ser contratada pela
    Odebrecht para fazer a segurança patrimonial durante a construção de um
    condomínio em Luanda, o Kizomba, para a petrolífera Esso em 2012.



    Angola é o quinto produtor mundial de diamantes, gerando 8% da
    produção mundial. Em 2014, a produção chegou a 8,6 milhões de quilates,
    alcançando um total de US$ 1,2 bilhão, segundo o
    Ministério da Geologia e Minas. Os diamantes são o segundo maior
    produto de exportação, atrás do petróleo com larga distância.



    Depois de ter anunciado a intenção de se afastar do setor
    diamantífero, no fim da década passada, a Odebrecht abriu uma nova
    sociedade com a Endiama para explorar a mina de diamantes do Luaxe, na
    região de Lunda Sul, que pode duplicar a produção nacional. A Odebrecht tem 7,5% das ações. Luaxe, considerada a maior mina de kimberlito do mundo, fica a apenas 20 quilômetros de Catoca.






    De mãos dadas com o Estado

    Depois de anos estudando o comportamento das construtoras brasileiras
    durante a ditadura e o seu processo de internacionalização, o
    historiador Pedro Campos chegou à seguinte conclusão: “São empresas que
    vivem da relação com o Estado”. Para ele, a principal vantagem da
    Odebrecht não é a qualidade da sua engenharia. Longe disso. “A marca da
    Odebrecht não é essa. É ser uma potência política. Ela sabe desenvolver
    relações com o aparelho do Estado e ser atuante em muitas frentes – como
    é o caso com as Forças Armadas, Congresso, partido. A expertise está
    mais nisso”, diz.



    Em uma economia como a angolana, controlada por um Estado
    autoritário, a Odebrecht tem uma trajetória comum às maiores empresas
    internacionais que passa, necessariamente, por uma profunda aliança com
    as elites. “Em Angola, se uma companhia se torna íntima do poder, vai
    ter acesso a praticamente qualquer oportunidade que apareça”, explica o
    pesquisador português Ricardo Soares de Oliveira, professor da
    Universidade de Oxford, na Inglaterra. “Podem ser oportunidades da sua
    área de especialização inicial, por exemplo, a construção civil, mas
    podem ser diamantes, podem ser restaurantes, podem ser hotéis, pode ser import/export,
    pode ser agricultura, pode ser o que for”, diz o autor, que dedicou os
    últimos dez anos a entender a dinâmica econômica do país após o fim da
    guerra civil.



    Esse modus operandi não ocorre por acaso. O autor do aclamado livro Magnífica e miserável: Angola desde a guerra civil
    vê uma estratégia planejada de concentração de poder pelo presidente
    José Eduardo dos Santos dentro de um estado autoritário que lhe rendeu
    um controle sem paralelo na África. “A economia política da reconstrução
    gerou muitas oportunidades, muitos contratos, e esses contratos foram
    adquiridos por pessoas próximas do poder. É claro que a Odebrecht, sendo
    uma presença já muito antiga no país, e tendo uma relação
    particularmente privilegiada com o palácio presidencial, teve acesso a
    essas oportunidades a uma escala muito diferente de outros operadores em
    Angola.”



    Talvez o mais cristalino resumo sobre como funciona a economia
    angolana venha de uma descrição da ex-embaixadora brasileira Ana Lucy
    Cabral Petersen. Ao detalhar as oportunidades para empresários
    brasileiros, ela escreveu em um despacho diplomático de 13 de março de
    2011: “Boas conexões e parceiros locais influentes são fundamentais para
    a concretização de investimentos em Angola. Sócios locais estratégicos,
    como a Sonangol, ex-ministros, generais e empresários próximos ao
    Presidente, facilitam a aprovação de projetos e dirimem entraves
    burocráticos. Bons contatos na Agência Nacional de Investimento Privado
    (ANIP), que dá o aval a grandes projetos de investimento, são também
    fundamentais”.



    As ligações da Odebrecht em Angola
    Para a pesquisadora Anna Saggioro, do Laboratório Interdisciplinar de
    Estudos em Relações Internacionais (Lieri), da Universidade Federal
    Rural do Rio de Janeiro, é impossível dissociar o poder do presidente
    com o poder da Odebrecht. “A gente vê o grau de autoritarismo do governo
    angolano, e a gente não pode escolar a Odebrecht desse autoritarismo. A
    Odebrecht atua junto com o governo angolano em uma série de
    empreendimentos e também nas suas ligações internas. Não podemos
    simplesmente dizer que é apenas uma empresa que segue as regras”,
    avalia.



    Ricardo Soares diz que, como pesquisador, é muito difícil analisar a
    atuação da Odebrecht no país, pois há pouca informação e transparência.
    “As especulações sobre a relação da Odebrecht com a elite angolana são
    inteiramente legítimas. Se a Odebrecht está preocupada com a sua
    reputação, só tem que clarificar a natureza dessas relações. Até que
    ponto eles são lucrativos, qual é a lógica desses projetos? Por exemplo,
    eu gostava que a Odebrecht colocasse disponível uma lista exaustiva de
    seus negócios. Tenho uma lista de exemplos, e não há mês que passe que
    não venham dizer que a Odebrecht está, afinal, metida aqui ou ali.”



    Leia mais: Medo e controle em Angola


    Leia mais: A equação Brasileira


    Assista à websérie: É proibido falar em Angola


    Um país em obras

    De fato, são tantos os contratos e investimentos públicos e privados
    que é muito difícil obter uma lista completa dos empreendimentos da
    Odebrecht em Angola, ou avaliar os lucros auferidos ao longo de tantos
    anos. A reportagem pediu essa listagem, mas não foi atendida. A receita
    total da empresa no país não consta do seu relatório anual 2014,
    diferentemente do valor gasto com projetos sociais e ambientais,
    nitidamente visível: US$ 17 milhões em 2014. O que consta, ali, é apenas
    o “valor econômico distribuído” – impostos, salários, pagamento de
    fornecedores, investimentos na comunidade, custos operacionais e de
    financiamentos – no total de US$ 1.851.780.000. À Pública,
    a assessoria de comunicação da Odebrecht afirmou que a receita foi da
    ordem de US$ 1,8 bilhão. Ou seja, nenhum lucro. Sobre esse
    questionamento, a empresa retrucou: “A conclusão não é correta. A
    Odebrecht teve lucro em Angola e tem todas as suas contas auditadas por
    auditor independente. Como se sabe, as operações da Odebrecht em Angola
    são executadas por companhia de capital fechado e não está sujeita à
    obrigação de publicar as suas contas. De qualquer forma, as contas
    consolidadas do negócio de Engenharia e Construção da Odebrecht são
    disponibilizadas para os seus stakeholders”.



    Leia aqui todas as respostas da Odebrecht


    Ao longo de meses de pesquisa, a Pública elaborou
    uma lista extensa – porém provavelmente não exaustiva – dos contratos e
    investimentos da empresa brasileira ao longo de 32 anos em Angola. Veja
    na linha do tempo:




    Entre as obras, há diversos “elefantes brancos”, imensas construções
    que não geraram a prometida riqueza às suas populações. Para o
    pesquisador Mathias Alencastro, a multiplicação de projetos da Odebrecht
    em Angola cumpre um papel estratégico. “Ela cria a sensação de um
    movimento de reconstrução permanente, de que o país está mudando, que é a
    grande retórica que o MPLA criou para sufocar as contestações,
    legitimando seu poder autoritário. O que importa é que os projetos sejam
    anunciados, não que sejam bem-sucedidos”, analisa.




    • Supermercado Nosso Super. Foto: Odebrecht
    • Supermercado Nosso Super. Foto: Odebrecht

    Em 2006, a Odebrecht aceitou mais um pedido presidencial ao entrar em
    uma nova área de negócios: supermercados. Inicialmente, o contrato
    cobria a construção e implementação da Rede Nosso Super, com 32 lojas em
    todas as províncias do país e dois centros de distribuição e logística.
    O objetivo era nobre: prevista para ser operada pelo Estado angolano, a
    rede deveria absorver a produção local de camponeses. Não foi o que
    ocorreu. Executado ao abrigo do Programa de Reestruturação do Sistema de
    Logística e Distribuição (Presild), com assessoria da Odebrecht, a rede
    acabou entrando em crise por má gestão, sofrendo desabastecimento, com boatos de falência,
    e suas lojas foram fechadas no fim de 2011. O programa, da forma como
    estava concebido, não era sustentável, pois tinha custos bastante
    elevados, reconheceu a ministra do Comércio, Idalina Valente. Seis anos depois de ter entregado as lojas ao governo, a Odebrecht recebeu a concessão de exploração da rede, na qual grande parte dos produtos é importada. Segundo reportagem do jornal O País,
    há incapacidade de fornecimento de produtos nacionais. “O abastecimento
    tem sido débil. Temos recebido produtos, uma vez ou outra. No Nosso
    Super sempre foi assim. O fornecimento e o abastecimento continuam a ser
    os mesmos. Nada mudou. Só subiram os preços”, informou ao jornal uma funcionária do Nosso Super.



    Outro exemplo de investimento frustrado é o aeroporto internacional
    de Catumbela, na província de Benguela, oeste do país, que fica a apenas
    20 quilômetros de outro aeroporto, o 17 de Setembro, este encravado na
    zona mais elevada da cidade. O aeroporto “internacional” foi inaugurado
    em 27 de agosto de 2012 com fanfarra: o próprio presidente
    foi ao local para o evento, realizado a quatro dias das eleições
    presidenciais. Ambicioso, o projeto previa colocar Benguela no mapa
    internacional, com rotas de voo de diversos países e capacidade para
    atender mais de 900 pessoas por hora. O investimento total, segundo o
    site Rede Angola, foi de US$ 250 milhões – metade garantido via
    empréstimo do BNDES. Mas, dois anos depois da inauguração, faltavam ainda
    o terminal de carga, instalações para alfândega e montagem de
    equipamentos. Por isso, até hoje a Associação Internacional do
    Transporte Aéreo (IATA) não certificou o aeroporto. Hoje, atende apenas
    voos domésticos para Luanda. “Não temos voos suficientes para aproveitar
    o potencial que existe na província de Benguela”, reconheceu o ministro
    de Transportes no ano passado. O outro aeroporto, que antes atendia
    vôos nacionais, hoje só abre alguns dias da semana e é usado por
    autoridades e vôos privados.



    Aeroporto de Catumbela. Foto: José Alves/ Rede Angola

    Aeroporto de Catumbela. Foto: José Alves/ Rede Angola

    Uma obra contratada para revolucionar a baía de Luanda – a Marginal
    Sudoeste – também está parada. O primeiro projeto, a construção de
    pontes para permitir a construção da marginal (baixe aqui o decreto presidencial),
    recebeu financiamento de R$ 21 milhões do BNDES. Mas a marginal, em si,
    nunca saiu do papel. Hoje, o trecho reservado a ela, de 8 quilômetros
    entre a praia do Bispo e o largo da Corimba, na baía da capital
    angolana, parece um cenário apocalíptico: onde antes havia um musseque
    com milhares de pessoas, o bairro da Chicala, sobraram destroços das
    casas, derrubadas violentamente por tratores por noites a fio; sobre
    elas, alguns antigos moradores fizeram barraquinhas para vender comida e
    refrigerantes.



    “A construção da Via Marginal Sudoeste foi dividida em duas etapas. A
    primeira, objeto do financiamento citado, foi concluída em agosto de
    2012. A Construtora Norberto Odebrecht também foi contratada para
    execução da segunda etapa do empreendimento, que contempla os trabalhos
    de aterro hidráulico, proteção costeira, pavimentação, iluminação
    pública e outros. Esta etapa ainda não foi iniciada”, explicou por
    e-mail o coordenador de sustentabilidade da Odebrecht, Paulo Campos.



    Foi Paulo, um elegante e gentil executivo carioca, quem ciceroneou a
    reportagem durante uma viagem de quatro dias, em setembro do ano
    passado, à maior zona contínua de atuação da empresa no país, às margens
    do caudaloso rio Kwanza. Um verdadeiro mergulho no coração da Odebrecht
    em Angola.



    Passeio no rio da Odebrecht

    O carro 4×4, cinza-chumbo, chega antes das 6 horas da manhã. A saída
    de Talatona, cujo traçado urbano é composto de longos desvios nas suas
    avenidas de mão única, não ajuda. Antes de conseguirmos sair de Luanda,
    engarrafamento, caos, atropelamento – passa pelo menos uma hora. Aos
    poucos, a paisagem se transforma, os musseques, candongueiros
    (vans) e zungueiras (mulheres que vendem verduras nas bacias que trazem à
    cabeça) vão dando lugar a terrenos secos, repletos de embondeiros, ou
    baobás, árvore-símbolo de Angola.



    Chegar à província de Malanje, onde corre o médio Kwanza, a bordo de
    um carro da Odebrecht significa a certeza de acesso não só aos canteiros
    de obras como às comunidades nas redondezas. Acesso que parece fechado
    para todos aqueles que não contam com tal sorte. E não é que a
    reportagem não tenha tentado. “Não temos nenhum trabalho nas comunidades
    afetadas”, explicou-me por telefone a representante da ONG Adra – Acção
    para o Desenvolvimento Rural e Ambiente, que defende direitos dos
    camponeses. “Mas apresentamos um projeto para a Odebrecht e, quem sabe,
    vamos começar em breve um trabalho lá.” No mesmo dia, um jornalista
    local desculpou-se por não poder nos levar até as comunidades: apenas
    visitas registradas e autorizadas pelo governo podem circular
    livremente.



    A estrada é errática: no começo, uma pista foi desativada pela
    construtora chinesa, enquanto as duas mãos dividem um espaço exíguo. De
    repente, o asfalto acaba. “A empresa que ia construir faliu”, explica o
    motorista Frederico Huambo, que viaja toda semana diversas vezes para o
    leva e traz da Odebrecht. O asfalto volta no último terço, construído
    pela Odebrecht.



    Chegando à usina de Cambambe, um vistoso paredão marca a última etapa da reabilitação, com elevação de 30


    • O Rio Kwanza e as turbinas de Cambambe. Foto: Eliza Capai/Agência Pública

    metros do dique e ampliação da represa em 2 km2.


    A obra promete aumentar em dez vezes a capacidade da usina, construída pelos portugueses na época colonial, chegando a uma potência máxima de 960 MW de energia.


    Somos recebidas com um farto café da manhã no restaurante VIP da
    obra. Lá fora, um belo deque de madeira dá vista para o reservatório e a
    parte de trás do vertedouro. O consórcio liderado pela Odebrecht, junto
    às empresas Voith, Alstom e Engevix, recebeu o maior desembolso feito
    até agora pelo BNDES para Angola: US$ 464,4 milhões. De repente, nos
    apressam: “Precisamos ir, temos muito o que ver”. Ao nos aproximarmos de
    um edifício branco, alguém comenta: “As crianças estão esperando”.
    Quando abrem a porta – somos um grupo de cerca de dez pessoas, incluindo
    os diretores –, cerca de 20 crianças estão de pé olhando para nós. Ato
    contínuo, começam a cantar forte, desafinadas, batendo palmas num
    esforço treinado para nos impressionar. “Sejam bem-vindos, vossa
    presença é um prazer”.



    A professora acompanha com um pandeiro. “Uma salva de palmas. As
    crianças do projeto Xalenu Kyambote são todas aqui da vila, temos a sala
    de alfabetização para crianças, temos curso também de informática,
    inglês e francês”, diz a professora, sob aplausos. As crianças continuam
    cantando quando fechamos a porta. Na sala contígua, três mulheres estão
    sentadas à máquina de costura, entretidas. Ganhamos um caderno e uma
    bonequinha de pano como lembrança. O desfile de projetos sociais segue: a
    Odebrecht beneficia 67 famílias com um programa de agricultura
    familiar, o PAF. “Todos os vegetais dos refeitórios vêm daqui”, diz o
    gerente de contrato Gustavo Belitardo. “Fazer hidrelétrica pra quem
    precisa é a maior satisfação que pode ter.”



    No início da noite, chegamos a Laúca, uma cidade inteira no meio da
    savana. De longe, se vê o clarão amarelado de energia elétrica, onde não
    há nem uma chama em quilômetros. Somos hospedadas na espaçosa casa de
    convidados, com quartos luxuosos, ar-condicionado, TV de tela plana – e
    um cartãozinho de boas-vindas, ao lado de uma caixinha do Boticário com
    um sabonete rosado e hidratante de marshmallow.



    “Tá parada”

    Numa manhã calorenta, o tour do dia será conhecer a Biocom,
    principal e mais vistoso empreendimento do Pólo Agroindustrial de
    Capanda, projeto considerado prioritário pelo governo angolano, com uma
    área de 411 mil hectares. A Odebrecht foi contratada para administrar o
    pólo por US$ 49 milhões, em abril de 2011, segundo o Diário da República (baixe aqui o decreto).
    A cerimônia de assinatura teve a presença dos ministros da Agricultura,
    Desenvolvimento Rural e Pesca e Urbanismo e Construção, amplamente
    divulgada na controlada imprensa angolana.



    No entanto, a paisagem desoladora – os pequenos vilarejos de casas de
    barro dão lugar a um imenso vazio – demonstra que o projeto está longe
    de render os frutos prometidos. De repente, avistamos uma fazenda – a
    placa que indica “Pugo Andongo”. Paulo Campos pergunta para o motorista
    Frederico Huambo: “Não tá acontecendo nada aí na Fazenda Pungo Andongo,
    né?” “Tá parada”, responde Frederico.



    A fazenda, de 33 mil hectares, chegou a ser o cartão-postal do pólo.
    Foi inaugurada em 2006 – novamente com a presença do presidente José
    Eduardo dos Santos. A promessa de revolucionar a agricultura angolana
    ganhou destaque nos jornais, e uma parceria com a Embrapa, para a
    reprodução de sementes e treinar técnicos angolanos em experimentação
    agrícola, foi bastante celebrada na comunicação institucional da Odebrecht. O site oficial
    mostra como últimos “resultados” da Pungo Andongo a safra de 2010-2011,
    que produziu cerca de 5 mil toneladas de milho. O que aconteceu depois?
    Não se sabe. “Não existem informações oficiais sobre a execução desse
    projeto nem sobre o que se está a produzir”, critica Carlos Cambuta,
    coordenador de projetos da Adra. “A verdade é que estamos a caminhar
    para o terceiro, quarto, quinto ano do PAC e ainda não temos visto os
    resultados. Pode ser que tenham estudado, mas os resultados não foram
    compartilhados.”



    A Embrapa explicou à Pública que assinou um
    memorando em 2008 com a Odebrecht para viabilizar o convênio, mas ele
    venceu em 2013 sem ser executado. A Odebrecht limitou-se a informar que
    “a fazenda Pungo Andongo é objeto de uma concessão para implantação de
    um pólo avícola e está em fase de estudos”.




    Usina de acúcar Biocom. Foto: Eliza Capai/Agência Pública

    Já a Biocom nos recebe em pleno funcionamento. A usina de
    cana-de-açúcar nasceu grandiosa, em 2008, com a promessa de produzir 60%
    do açúcar consumido em Angola, uma produção de 256 mil toneladas por
    ano. Somente seis anos e US$ 1 bilhão de investimentos depois, ela fez
    sua primeira plantação experimental, de 3,2 milhões
    de toneladas em 2014. Mas a grande estrela do Pólo Agroindustrial
    ganhou triste notoriedade no Brasil nos últimos anos: em junho de 2014,
    depois de uma reportagem do jornalista João Fellet, da BBC, foi denunciada pelo Ministério Público do Trabalho
    no Brasil por manter cerca de 400 empregados brasileiros em condições
    análogas à escravidão, mediante aliciamento e tráfico internacional de
    pessoas. Os trabalhadores denunciaram sujeira nos banheiros e cozinha,
    longas jornadas de trabalho e o isolamento – no meio do PAC, eram
    vigiados por seguranças armados.



    Em 1o de setembro de 2015, a Odebrecht foi condenada a
    pagar uma indenização de R$ 50 milhões aos trabalhadores. No dia
    seguinte, chegamos à usina. Fernando Koch, diretor de sustentabilidade
    da Biocom, um brasileiro com anos de trabalho na Odebrecht, está
    irritadíssimo. “Isso é um absurdo. Não é verdade”, repete. “Os angolanos
    estão com vergonha da nossa imprensa”, diz. O telefone toca diversas
    vezes, com mais pedidos de entrevistas sobre o caso. Ele vocifera: “As
    provas que nós juntamos no processo não foram em momento algum
    mencionadas pelo juiz”. A Odebrecht recorreu, negando todas as
    acusações.



    No entanto, o fato mais grave – e reconhecido pela empresa – tem raiz
    na profunda aliança com o Estado angolano. Contratados para trabalhar
    durante alguns meses, os operários chegavam a Angola com um visto
    ordinário, e seus passaportes eram entregues ao Serviço de Migração e
    Estrangeiros de Angola (SME). Sem os passaportes, os
    funcionários alegaram ter cerceado seu direito de mobilidade. “A lei que
    diz que empresas de interesse nacional têm o direito de expatriar
    pessoa com o visto ordinário para que o visto de trabalho seja tramitado
    em Angola”, conta Koch. “O período que a pessoa fica sem o passaporte,
    ela tem um recibo do SNE que tá lá dizendo que ele pode circular
    tranquilamente pelo país.”



    Entre uma reclamação e outra, Koch nos mostra os alojamentos dos
    atuais empregados – bem-apresentados, limpos, amplos. Na colheita, ele
    nos leva até a “área de convivência”, uma van de alumínio pintada de
    azul. E vai perguntando para a única operadora de colheitadeira mulher:
    “O que você acha da Biocom?”. Ao que ela responde: “Muito bom, a Biocom
    veio aqui para ajudar a gente. Antes não tinha emprego, agora tem, todo
    mundo tá trabalhando”. Pouco depois, Koch interrompe outro trabalhador,
    brasileiro, diante dos laboratórios da indústria: “Você gosta de
    trabalhar aqui?”. “Sim, muito”, ele responde, recebendo um encorajador
    tapinhas nas costas.



    Empreendimento de interesse nacional, a Biocom nasceu de uma aliança
    da Odebrecht com a estatal petrolífera Sonangol e a empresa Damer
    Industrial S.A. Segundo documentos constantes em um inquérito conduzido
    pela Procuradoria Geral de Portugal em 2014 aos quais a Pública teve
    acesso (Baixe aqui: Página 1, 2, 3, 4, 5, 6,
    7), a empresa pertence ao ao hoje vice-presidente, José Manuel Vicente,
    além do general Manuel Helder Vieira Dias, o poderoso Kopelipa, chefe
    da Casa Militar da Presidência, e o general Leopoldino Fragoso do
    Nascimento, o “Dino”. A Damer tinha 40% do negócio – o que fere a lei
    angolana da Probidade Pública, já que seus sócios mantinham cargos no
    governo.



    General Leopoldino Fragoso, "Dino", sócio da Biocom. Foto: Divulgação

    General Leopoldino Fragoso, “Dino”, sócio da Biocom. Foto: Divulgação

    Com base nisso, Rafael apresentou uma queixa-crime para a
    Procuradoria-Geral da República de Angola. “Recebi resposta de que esses
    dirigentes não eram sócios da Biocom, incluindo o general Leopoldino
    Fragoso”, diz (baixe aqui a resposta da Procuradoria).
    Fragoso foi nomeado consultor do general Kopelipa em setembro de 2010,
    quando a Biocom já caminhava, segundo a revista americana Foreign Policy.
    Já o vice-presidente Manuel Vicente era, na época, presidente da
    Sonangol. “Os dirigentes na presidência facilitaram o negócio pra
    ficarem com parte da sociedade. É um ato de corrupção claro”, diz
    Rafael.



    Hoje, o nome da Damer sumiu das brochuras da Odebrecht, e não se fala mais nisso. Foi substituída por outra empresa, o grupo Cochan, com sede em Cingapura, cujo presidente é o mesmo general Leopoldino Fragoso. Em entrevista à revista Foreign Policy, o general “Dino” reiterou que, hoje, não ocupa mais nenhum cargo público. À Pública,
    a empreiteira diz que a alteração societária foi feita em 10 de outubro
    de 2014, “não sendo do conhecimento da Odebrecht o motivo da
    transferência”.



    A Damer gráfica, que também é de Manuel Vicente, segundo
    os documentos da PGR portuguesa, foi reformada pela Odebrecht em 2009. A
    queixa-crime no Ministério Público foi arquivada pelo juiz em janeiro
    de 2013 “pela inexistência de quaisquer indícios de veracidade”.



    “Nenhum órgão público investigou absolutamente nada em 30 anos de Odebrecht em Angola”, diz Rafael Marques.


    Laúca é um espetáculo

    Conhecer a hidrelétrica de Laúca e todos os projetos a ela associados, ponto alto e final do tour, levou quase dois dias.


    Laúca é a hidrelétrica definitiva de Angola. Projetada para produzir
    2.070 MW, ela vai dobrar a oferta de energia elétrica, gerando
    constantemente 1.200 MW, e promete acabar com a penosa economia à base
    de geradores.



    Laúca é tão importante que recebe um desfile de autoridades todo ano.
    Em junho de 2012, o então ministro de Estado Manuel Vicente lançou a
    pedra fundamental junto com uma comitiva
    de ministros e a embaixadora do Brasil. Em setembro de 2014, o
    presidente José Eduardo dos Santos visitou as obras da barragem, sendo
    recebido por milhares de pessoas; na ocasião, houve até uma reunião do
    conselho de ministros no canteiro da obra da Odebrecht. Um ano depois, foi a vez
    da ministra da cultura Rosa Cruz e Silva. A contar o histórico de obras
    da empreiteira em Angola, o desfile deve se acelerar em 2017, ano de
    eleições para presidente.



    A construção da hidrelétrica marca o auge de uma era de empréstimos
    do BNDES para obras de construção em Angola. Ela é o maior financiamento
    cedido desde 2002 para um só empreendimento. Será de mais de US$ 2
    bilhão de dólares, segundo anunciou
    Dahia Blando. O BNDES reconhece apenas uma parcela desse valor. Um
    investimento de US$ 146 milhões, já desembolsados, e outro no valor de
    US$ 500 milhões – o que não lhe tira a liderança nos empréstimos. (Leia Mais: A equação brasileira)



    Há ainda um financiamento do Deutsche Bank de US$ 1,4 bilhão, e o valor total é de mais de US$ 4 bilhões.


    A obra é tratada com visível carinho pela equipe da Odebrecht em
    Angola. As cerca de 60 famílias que terão de ser removidas já participam
    de discussões sobre como serão as casas a ser construídas, que terão
    estrutura de saneamento básico, uma escola, um posto médico e estradas
    de acesso. Uma enorme melhoria em relação à situação atual, garante
    Maria Tchikanha, a eficiente engenheira agrônoma que é responsável pelo
    setor de responsabilidade social da AH Laúca. “Fizemos um levantamento
    socioeconômico na área, e o que verificamos é que as comunidades eram
    mesmo paupérrimas. Para além de não ter rendimento, não tinha saneamento
    básico, não tinha escola, não tinha nada, viviam só de subsistência”,
    diz Maria. “O governo começou a construir uma escola, não terminou, por
    alegada falta de verbas. Construíram um hospital que vivia fechado. Não
    tinha nenhum mercado para poder comprar um produto. As pessoas viviam
    aqui de cavar poço e das mandioqueiras.”



    Estamos diante da escola da comunidade do Muta, na estrada que leva a
    Malanje, cuja obra foi terminada pela Odebrecht. Não é à toa que,
    quando entramos em uma das classes onde cerca de dez meninos e meninas
    assistem à aula, eles respondem em coro:



    – Vocês sabem o que é o Brasil?


    – Nãããããao!


    – Vocês sabem o que é a Odebrecht?


    – Laúca!


    – E pra que estão fazendo Laúca?


    – Pra produzir energia…


    – E vocês já têm energia em casa?


    – Nããããããããao – gritam em uníssono.


    Fechando a porta da escola, Maria mostra um bebedouro com algumas
    torneiras e tanques, o “fontanário” construído pela Odebrecht que
    atende, como a escola, cinco comunidades que ficam até 2 quilômetros de
    distância. O plano inicial, diz, era requalificar todas as comunidades,
    garantindo a provisão de luz e água de maneira mais eficiente. A
    terraplanagem até começou, mas foi interrompida por ordens superiores.
    “Seria obrigação do governo provincial dar energia às comunidades”,
    explica Maria. “Nós temos que trabalhar sempre junto com o governo.”



    Camponeses do projeto KUkala Ku Moxi posam para as câmeras. Foto: Eliza Capai/Agência Pública

    Camponeses do projeto KUkala Ku Moxi posam para as câmeras. Foto: Eliza Capai/Agência Pública

    Visitamos também comunidades que fazem parte do projeto social Kukala
    Ku Moxi, pelo qual homens e mulheres de 700 famílias foram capacitados a
    plantar uma variedade de verduras inexistente na região. A cada duas
    semanas, a Laúca realiza uma feira no canteiro de obra, e as mulheres
    vendem o que podem, chegando a até 45 mil kwanzas por viagem.
    As verduras servirão ao enorme refeitório, onde os cerca de 4 mil
    funcionários comem 15 mil refeições por dia. As hortas que visitamos são
    vistosas, e as mulheres, sorridentes. “Na minha lavra tem mandioca,
    milho, jingunba, todo tipo de produtos. E assim pra comer aqui graças a
    Odebrecth”, diz Maria Celeste, uma das lavradoras apontadas como
    entrevistadas pela equipe de comunicação.



    A enormidade da obra é clara enquanto rodamos pelo canteiro; os
    trabalhadores angolanos que esperam à beira da estrada pelo transporte
    provido pela empresa – transporte público é inexistente –, devidamente
    uniformizados e com capacetes, parecem formiguinhas na enormidade da
    obra. Apenas o muro de concreto para a barragem terá utilizado, ao
    final, o equivalente a dez prédios de oito andares. Tudo é majestoso,
    organizado e bem-apresentado. O canteiro de obras tem salão de beleza,
    quadras esportivas, academia de ginástica, cinema, posto de saúde e
    equipe médica. O projeto inclui ainda tanques de tilápia, piscicultura,
    que abriga mão de obra da região; um enorme canteiro onde mudas locais
    são reproduzidas para ser replantadas, e um impressionante sistema de
    reúso de água reaproveita quase 40% do total da água utilizada. Os
    cuidados com a segurança são coroados com a presença da mascote
    “Javaluca”, um desenho com o capacete da Odebrecht cujas dicas estão
    espalhadas em cartazes e nas revistinhas mensais publicadas pela
    administração da hidrelétrica.



    O diretor de contrato, Marcus Azeredo, não esconde seu orgulho ao
    conversar com a reportagem. “A nossa central de britagem é a maior do
    mundo em operação; a nossa central de concreto é uma das maiores do
    mundo, com capacidades elevadíssimas. Coisas desse tipo nos permitiram
    dar para Laúca uma forma diferente de construir uma hidrelétrica.
    Extremamente moderna, extremamente qualificada”, diz. De cabeça, o
    engenheiro lista o cronograma da obra – e é enfático: não há nenhuma
    possibilidade de atraso.



    “Em julho de 2017 nós entramos com duas unidades de energia; em
    agosto, mais duas, e setembro, as últimas duas”, diz. Juntas, as seis
    unidades correspondem a 2 mil MW. Ao mesmo tempo, a Odebrecht constrói
    mil quilômetros de linhas de transmissão que prometem levar a energia
    até Luanda. “A linha fica pronta junto com Laúca”, garante Azeredo. “É
    um cronograma extremamente desafiador. Se nós conseguirmos, e vamos
    conseguir, gerar energia aqui nesse prazo, que é um prazo de 56 meses
    para a produção de energia, nós vamos ser mais eficientes que a própria
    construção que nós estamos fazendo no Brasil”, diz.



    Ali na casa de visitas, onde estamos hospedadas, é frequente a
    presença de jornalistas, conta o diretor. “Acho que não tem uma semana
    que a gente não receba. E, quando eles não vêm, a gente convida a mídia.
    A gente abre as portas justamente para que possa se divulgar para o
    país tudo o que o governo tá fazendo”, diz. O relatório anual 2014 da
    Odebrecht respalda a sua impressão: naquele ano, cerca de 98% das
    notícias sobre a empreiteira na imprensa angolana foram positivas. O que
    o relatório não menciona é que, no país, há um único jornal diário, o
    estatal Jornal de Angola, e que as TVs abertas se resumem à TV
    pública, TPA, a TV Zimbo, privada, que tem como acionista o
    vice-presidente, Manuel Vicente, segundo levantamento de Rafael Marques.



    A cobertura positiva tem razão de ser, aos olhos de Azeredo: o
    empenho de Laúca em melhorar a vida das pessoas. “Temos um alojamento de
    excelente qualidade, todos os quartos praticamente são suítes, e no
    máximo quatro pessoas por quarto, todos com ar-condicionado, chuveiro
    com água quente. A qualidade da alimentação aqui é excelente. Investimos
    em equipamentos novos, pagamos um bom salário, pagamos prêmio de
    produtividade…”, diz.



    “Eu diria que, se não tivéssemos esse tipo de condição, nós não
    conseguiríamos fixar essa mão de obra aqui e aí teríamos um problema
    sério com nosso cronograma”, completa.



    Laúca vai sair, garantem todos, durante a nossa despedida. E só uma
    voz solitária, entre os funcionários da Odebrecht, fala alto o que
    poucos se arriscam a dizer. “Tem que ficar pronta. Vai estar a produzir
    energia no ano de eleger o presidente. E ele já tá com 73 anos…”.



    De fato, pouco depois o presidente José Eduardo dos Santos determinou  que
    as eleições presidenciais serão em agosto de 2017 – um mês após a
    inauguração de Laúca. E haverá festa, haverá cerimônia e manchetes em
    toda a mídia angolana.






    umbunzeiro_angola (1)


    Leia mais: Medo e controle em Angola


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    Assista à websérie: É proibido falar em Angola




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    O maior mistério da Olimpíada


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    30 de maio de 2016
    Seis vigas de aço pesando 110 toneladas simplesmente desapareceram em
    meio às obras para o Porto Maravilha. Nosso repórter foi atrás dessa
    história e da fracassada investigação policial

























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Da Justiça a clava forte