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ÍNDICE
Folha de rosto da edição em papel
Aos Jovens
Epígrafe
Agradecimentos
Porquê este livro
A Revolta de Uma Mulher
PRIMEIRA PARTE
Além de Uma Calúnia, Uma Ingratidão
SEGUNDA PARTE
A Escalada do Terror
TERCEIRA PARTE
Treinamento, Tática e Conduta do Inimigo
QUARTA PARTE
A Contra-Ofensiva
QUINTA PARTE
Terrorismo: Nunca Mais
SEXTA PARTE
A Orquestração
SÉTIMA PARTE
Bete Mendes - A “Rosa” na VAL-PALMARES
OITAVA PARTE
A Deputada em Montevidéu
NONA PARTE
Desmentindo a Deputada
DÉCIMA PARTE
Encerramento
Bibliografia
Sumário
Rompendo o Silêncio
Carlos Alberto Brilhante Ustra
Edição
supervirtual
www.supervirtual.com.br
Versão para eBook
eBooksBrasil.com
Fonte Digital
Digitalização da edição em pdf
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© 2003 — Carlos Alberto Brilhante Ustra
Carlos Alberto Brilhante Ustra
ROMPENDO
O
SILÊNCIO
OBAN
DOI/CODI
29 Set 70 — 23 Jan 74
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Copyright 1987 — Carlos Alberto Brilhante Ustra
Capa
: Joseíta Brilhante Ustra
Revisão
: Joseíta Brilhante Ustra
Composição
: Luiz Alves de Lima
Montagem e arte-final
: Raimundo Hemetérios
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Todos os direitos em língua portuguesa reservados de acordo com a lei. Nenhuma parte deste livro
pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia,
gravação ou informação computarizada, sem permissão por escrito do autor.
Composto e impresso no Brasil
Printed in Brazil
Este livro é dedicado aos jovens do meu País.
Dedico-o aos jovens porque eles são o futuro, o novo Brasil. Dedico-o aos jovens, porque eles
são puros de espírito e de intenções. E os vejo, muitas vezes, explorados em sua pureza. No negro
período da
Guerrilha Revolucionária
que sofremos em nosso País, eles foram usados, manipulados em
seus sentimentos. Fizeram-lhes a cabeça e puseram-lhes uma arma na mão. E os jogaram numa violência
inútil.
Ofereço este livro aos jovens para que eles possam procurar a verdade. Porque os jovens devem ter
a liberdade de encontrá-la. E vejo que os jovens estão recebendo apenas as chamadas
“meias-verdades” que, no seu reverso, são meias-mentiras. Porque me preocupo quando vejo panfletos
tomando ares de história contemporânea, e sendo utilizados como a verdade definitiva. Não é sobre a
mentira que se alicerça o futuro de um país.
Dedico este livro aos jovens porque confio que, na sua sede de justiça, saberão encontrar a verdade,
e na sua fome de liberdade, saberão ser livres, e não permitirão que burlem de novo seus sentimentos,
oferecendo a violência no lugar da paz; a mentira no lugar da verdade; a discórdia no lugar da
solidariedade para construir o país.
Ofereço este livro aos jovens para que não se deixem enganar por ideologias ultrapassadas, por
soluções que não deram certo em outros países e para que não fertilizem as sementes da violência. Em
toda a mentira disfarçada de história contemporânea, ali está uma semente de violência.
É por isso que dedico este livro aos jovens, que repudiam a violência e amam a verdade.
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AGRADECIMENTOS
Com uma formação quase que exclusivamente militar, o meu trabalho foi dedicado à vida na
caserna desde os dezesseis anos de idade. Só fiz um curso fora do Exército, o de Administração de
Empresas, quando estudando a noite consegui me bacharelar.
Jamais pensei em escrever um livro. Não tenho pretensões de ser um escritor. Talvez, o meu
livro esteja cheio de imperfeições e de erros primários. Para mim, entretanto, o mais importante é
o seu conteúdo e as mensagens que pretendo transmitir, além de mostrar que fui vítima de uma
farsa.
Para a elaboração deste livro trabalhei praticamente sozinho. Não solicitei e nem recebi
nenhum tipo de apoio de qualquer órgão ou entidade. Os dados que obtive foram conseguidos
através de pesquisas em processos, nas bibliotecas, em livros, em documentos e, também, através
de um reduzido número de amigos. Desejo, antes de tudo, agradecer a essas pessoas, que se
propuseram a ajudar-me numa hora tão importante da minha vida.
Joseíta:
Não fosse a tua coragem;
Não fosse a tua fé na certeza de que conseguiríamos obter os dados que mostrassem aos
brasileiros o que um grupo de pessoas mal intencionadas e muito bem apoiadas, fizeram para nos
atingir e indiretamente atingir o Exército;
Não fosse o teu trabalho de dias e dias de pesquisas em bibliotecas, em livros, em jornais e em
documentos;
Não fosse o auxílio que me deste, lendo e corrigindo os textos deste livro;
Não fosse o teu incentivo e a tua vontade férrea, auxiliando-me a vencer etapas;
Não fosse o teu despreendimento, vendendo algumas jóias que possuías para auxiliar a
financiar essa edição; Não fosse o teu papel de companheira, mais uma vez, te colocando ao
meu lado para juntos aguardarmos serenamente toda a avalanche de reações que certamente
haverão de desencadear sobre nós, após a publicação deste livro;
Não fosse todo esse apoio recebido de ti, este livro não seria possível
Desejo agradecer:
— A um amigo do Lago Sul. Um homem puro, religioso e exemplar chefe de família. Seus
conhecimentos jurídicos me prestaram significativa ajuda:
— Aos meus amigos “Sufoco”, “Juju”, Pedro Sampaio, “Tonho” e “Dalucy”. Todos homens
que como eu, integraram outros DOI desse Brasil. A eles agradeço a grande cooperação que me
prestaram:
— A alguns companheiros do Exército os quais me auxiliaram, lendo, criticando e me
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animando na hora em que eu esmorecia:
— A todos os que direta ou indiretamente me ajudaram, os meus agradecimentos. Sem vocês
não poderia ter chegado onde cheguei:
— A um amigo que, através de minha mulher, conheci na minha volta ao Brasil. Um homem
inteligente, um expoente entre os melhores da sua profissão e que foi o meu grande incentivador
na consecução deste trabalho. Ele e sua mulher são amigos que desejamos conservar pelo resto
de nossas vidas:
— A um grande homem público, culto, ilustre e respeitado o qual, apesar de muito ocupado, se
dispôs a me ouvir e a me auxiliar:
— Aos amigos que me enviaram jornais e revistas que tratavam do assunto a que me propus
escrever, especialmente ao “Gogoi”:
— A P.Y. que não conheço e que através de amigos me conseguiu dados muito importantes.
Caro P.Y. sei que você é um idealista. Respeito os seus sentimentos e a sua maneira de encarar os
nossos problemas. Respeito-o, também, como pessoa. Você, numa demonstração de que também
respeita os meus sentimentos, não hesitou em me fornecer dados que me auxiliaram na
elaboração deste trabalho;
— A W. um jovem que também não conheço e que muito me ajudou. W, sei que você acredita
muito num Brasil melhor. Você, como aquela menina C.S. cujo pai me enviou significativa carta
que transcrevo neste livro (“Carta de um pai”), possui sentimentos puros, próprios dos jovens
que anseiam em melhorar as condições de vida do nosso povo. Veja no capítulo “Como o jovem
era usado”, o que os mestres da Subversão faziam para recrutar jovens idealistas como você.
PORQUÊ ESTE LIVRO
Em primeiro lugar elevo meu pensamento a Deus. Peço a Ele que ilumine a minha mente. Que eu
seja sincero e relate unicamente a verdade, sem ofender ou caluniar a quem quer que seja. Sei o que é
ser caluniado. Que eu atinja os objetivos a que me propus quando decidi escrever este livro.
Em segundo lugar dirijo meu pensamento ao meu querido irmão José Augusto Brilhante Ustra que,
jovem ainda, faleceu num acidente de carro. Advogado notável, grande tribuno, excepcional mestre.
Dedicou a sua vida ao Direito. Como defensor incansável da Justiça deixou marcas profundas na
Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Maria, RS. Gostaria que ele estivesse aqui, ao
meu lado, aconselhando-me, orientando-me, ensinando-me a escrever e, sobretudo, a fazer Justiça.
Escrevo este livro em respeito ao meu Exército e aos meus chefes os quais, principalmente, na
ocasião em que, sob suas ordens, combati o terror, sempre me apoiaram e me distinguiram. Durante
todo o tempo em que, como oficial do Exército, fui, formalmente, designado para dirigir um órgão de
combate a organizações terroristas, sempre procurei cultivar a virtude da lealdade aos meus superiores
hierárquicos, pares e subordinados. Isso, consegui cumprindo fielmente as ordens que me foram dadas,
sem nunca delas me ter afastado durante um momento sequer.
Escrevo este livro em respeito aos meus companheiros do Exército, da Marinha, da Força Aérea,
das Polícias Civil e Militar que, em todo o Brasil, lutaram com denodo, com bravura, com coragem e
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com abnegação no combate ao terrorismo.
Escrevo este livro em respeito aos meus comandados no DOI/CODI/II Exército, a OBAN como
muitos o chamam. A vocês, meus abnegados e queridos comandados, que respondendo ao chamado da
Pátria não hesitaram em lutar com honra, com bravura, com coragem e com dignidade para extirpar o
terrorismo de esquerda que ameaçava a paz e a tranqüilidade do Brasil. A vocês que, cumprindo ordens
minhas, enfrentaram aqueles brasileiros fanatizados e tombaram sem vida ou que ficaram inutilizados
nessa “guerra suja”.
Escrevo este livro em respeito às mães que perderam os seus filhos, às esposas que perderam seus
maridos e aos filhos que assistiram ao sepultamento dos seus pais, todos homens de bem que, no
combate ao terrorismo em todo o Brasil, entregaram suas vidas em benefício da Pátria. São todos eles
dignos, não só do meu reconhecimento, mas de toda a nação brasileira. Tenham a certeza de que seus
filhos, seus maridos e seus pais tombaram como heróis anônimos, jamais torturadores — como insistem
denominá-los alguns que anseiam por escrever a história como um panfleto, diferente da realidade.
Escrevo este livro em homenagem aos meus pais, irmãos e à minha sogra pelo muito que sofreram
ante a incerteza e o perigo que cercavam a minha vida quando, durante mais de quatro anos, lutei
diariamente enfrentando o terrorismo.
Escrevo este livro em respeito a ti, minha mulher, Maria Joseíta, pela angústia que sentiste e pelos
perigos que enfrentaste durante todos esses longos anos de luta. Pelas apreensões porque passaste ante
as ameaças de seqüestro de nossa primeira filha, naquela época com poucos anos de vida. Pela dor que
ainda passas quando hoje me acusam de ser um “vil torturador”.
Escrevo este livro, Patrícia e Renata, para mostrar-lhes que seu pai — ao contrário do que formulam
as esquerdas radicais — durante um período da vida dele, lutou e comandou homens de bem, no
combate ao terrorismo, atendendo ao chamado do Exército Brasileiro, instituição à qual tenho orgulho
em pertencer e à qual, praticamente, dediquei toda a minha vida. Quero que vocês conheçam como lutei
com dignidade, com humanidade e como arrisquei a minha vida e, involuntariamente, até a de minha
família, nessa luta que não começamos, não queríamos e que, em hipótese alguma poderíamos perdê-la,
sob pena de termos a nossa Pátria subjugada a um totalitarismo de esquerda. Quero que vocês saibam
que sinto a maior honra em ostentar a Medalha do Pacificador com Palma, a mais alta condecoração
concedida pelo Exército Brasileiro em tempo de paz àqueles que cumpriram o seu dever com risco da
própria vida. Quero, finalmente, que vocês saibam que lutei com a mais absoluta convicção e que me
orgulho de ter sido um, dentre muitos, que dedicaram parte de suas vidas ao combate do terror.
Escrevo este livro em respeito a mim mesmo, no momento em que sou caluniado, achincalhado,
vilipendiado, chamado de monstro e comparado com os assassinos nazistas que horrorizaram a
humanidade. Por isso tenho o dever de vir a público para esclarecer muitos fatos.
Escrevo este livro por um dever de consciência ante os rumos que, pressinto, tendem a distorcer a
História do Brasil. Livros, artigos, depoimentos distorcidos, carregados de calúnias e de mentiras, estão
informando numa só via a consciência do povo e servindo de base inconteste aos nossos políticos e aos
nossos mestres. É preciso restabelecer a verdade. Jamais me perdoarei por omitir fatos que permitam
julgar, de forma isenta e imparcial, uma época da História do Brasil, onde se deram profundas
modificações na vida política e sócio-econômica.
Não vou entrar em polêmicas ou debates ideológicos. Pretendo contar apenas aquilo que os jovens
desconhecem e alguns não querem relembrar.
A esquerda, distorcendo os fatos, os conta a seu modo, visando assim a iludir a opinião pública,
procurando conquistá-la, fazendo-se de vítima.
O objetivo deste livro é contar a verdadeira história sobre alguma coisa daquilo que ocorreu no que
alguns chamam “os porões da tortura”.
Não pretendo passar a imagem de “bonzinho”. Lutei sempre com firmeza. Fui duro e enérgico
quando necessário. Porém, fui acima de tudo humano.
Não se combate terrorismo com flores, mas com coragem, tenacidade e objetividade. E foi assim
que o combatemos, embora sempre tivéssemos em mente que estávamos lutando contra pessoas
humanas, algumas das quais por ideologia, por ignorância ou por fanatismo, praticaram os maiores e
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mais horrendos crimes.
A REVOLTA DE UMA MULHER
Carta manuscrita por minha mulher, como introdução de um álbum organizado por ela para
nossas filhas Patrícia e Renata.
Montevidéu, 02 de outubro de 1985.
Patrícia e Renata
Este álbum é de caráter particular, exclusivamente para vocês, nossas queridas filhas. Nele pretendo,
através de pesquisas, procurar saber o nome das organizações subversivo-terroristas que atuaram na
época, de outubro de 1970 a dezembro de 1973, período em que o pai de vocês comandou o
DOI/CODI de São Paulo. Os atos de terror destas organizações, como assassinatos de pessoas
inocentes, atentados a bombas, assaltos a bancos, a quartéis, seqüestros, depredações e todo tipo de
terror daquela época. Pretendo mostrar-lhes, se conseguir, com pesquisas em jornais, o caos que se
tentava implantar no Brasil. Tentarei saber o que cada organização terrorista fez, os atos que praticou e a
guerrilha urbana e rural que se implantou no país.
Estes terroristas obrigaram as Forças Armadas a se lançarem às ruas e aos campos, contra o inimigo
desconhecido que se escondia na clandestinidade.
Os militares, para evitar danos maiores a inocentes, lutavam contra o tempo e o desconhecido. Eles,
terroristas, lutavam contra o claro, o conhecido.
Deste combate participou o pai de vocês e lutou com honradez, honestidade e dentro dos princípios
de um homem bom, puro e honesto, assim como muitos outros. Só quem passou pelo martírio de ter
entes queridos envolvidos em uma luta que não iniciaram, nem procuraram mas que apenas cumpriram
com seu dever, manter a ordem no país, pode saber, como eu, os momentos de medo, incerteza, terror
que uma família passa. Só estas podem compreender a dor e o desespero de uma mãe e de uma esposa.
Telefonemas anônimos, perseguições, ameaças, morte de amigos em combate, a dor dos entes queridos
que, como nós, não tiveram a sorte de conservar com vida aqueles que amavam.
Sei e lamento que outras pessoas também passaram pelos mesmos sofrimentos de perder entes
queridos, mas estes entes queridos, fanatizados, terroristas, começaram a guerrilha e os atos de terror.
Houve a guerra, e em uma guerra há mortos e feridos de ambos os lados, mas os militares não a queriam
nem a iniciaram. Eles foram e são preparados para defender o Território Nacional. Foram chamados a
agir e acabaram com o terrorismo no Brasil.
O terror era tanto que quando tu, Patrícia, foste para o Jardim de lnfância, eu passei todo o ano, no
horário escolar, dentro do carro, na porta do colégio, pois não tinha condições psicológicas de ir para
casa. Recebíamos ameacas de morte, de seqüestro e todo tipo de guerra de nervos. Tive amigos mortos
e feridos em combate!
Assim mesmo, nos “porões da tortura”, como eles chamam, onde “se ouviam gritos e se mostravam
presos mortos à pauladas” como eles dizem, participei e tu também, Patrícia, ainda que pequenina (3
anos) de uma pequena “obra assistencial” a algumas presas, mais ou menos seis, uma inclusive grávida.
Íamos quase todos os dias. Tu brincavas com algumas enquanto eu, com outras, ensinava trabalhos
manuais como tricô, crochê e tapeçaria. Passeávamos ao sol, conversávamos (jamais sobre política),
levava tortas para o lanche feitas pela minha empregada. Enfim, as acompanhávamos.
Fizemos sapatinhos, casaquinhos, mantinhas para o bebê e com uma lista feita no DOI pelo
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“torturador” Ustra compramos um presente para o bebê. Ele nasceu no Hospital das Clínicas, se não me
engano em outubro de 1973 ou 1972 (verificarei depois), tendo o “centro de torturas” mandado flores à
mãe, e eu e tu, Patrícia, fomos vistá-los. Era um homenzinho lindo e forte.
Minhas filhas, os aniversários delas eram sempre comemorados com bolos e festinhas. Os Natais e
Anos Novos jamais passamos em casa, durante os quatro anos que o pai de vocês comandou o DOI,
sempre foram passados lá (o pai, eu e tu, Patrícia, Renata não era nascida). Tu, Patrícia, às vezes a
pedido das presas, ficavas sozinha com elas. Daí o artigo que pode ser encontrado neste álbum
“Brinquedo Macrabro” do jornalista Moacyr O. Filho, que diz que teu pai te deixava com as presas que
acabavam de ser torturadas. Se fossem torturadas, como ele diz, como podiam ter bom relacionamento
com os integrantes do órgão e como podiam aceitar, e não só aceitar, mas reclamar a nossa presença,
quando por algum motivo, falhávamos um dia?
Pena que não tivessem os integrantes do órgão, a malícia dos terroristas!... Porque, se tivessem,
fotografariam ou filmariam tudo, e casos como Bete Mendes (que não tive o desprazer de conhecer,
enquanto presa) seriam
comprovados
como mentirosos.
Sinto o nome de uma família inteira: pais, mães, sogros, irmãos, mulher e filhas, enxovalhados, e
como o militar não pode e não deve, por regulamento disciplinar do Exército, se defender, tomo eu,
exclusivamente eu, a iniciativa de deixar para vocês, nossas filhas, este álbum, de caráter particular, com
tudo que puder vir a reunir, além do Livro de Alteracões do pai de vocês, condecorações por arriscar a
vida, elogios, para que, como eu, se orgulhem, acima de tudo, de se chamarem BRILHANTE USTRA.
Um nome, cujo único erro cometido, foi cumprir com seu dever e, principalmente, cumprir bem: com
honra, com dignidade e humanidade, lutando sempre para evitar males maiores do que os que se
passavam no momento.
Compartilho a dor dos pais, mães, parentes, enfim, dos que por infelicidade perderam seus entes
queridos, fanatizados por ideais que não me compete julgar, e que não deviam ter usado a violência para
tentar consegui-los, mas não posso deixar de me revoltar contra as calúnias jogadas sobre um homem
bom, como o pai de vocês.
Beijos
Maria Joseíta S. Brilhante Ustra
ALÉM DE UMA CALÚNIA,
UMA INGRATIDÃO
A CALÚNIA
No dia 17 de agosto de 1985 todos os jornais do país, em manchete de primeira página, publicaram
as violentas acusações feitas contra mim pela Deputada Federal Elizabeth Mendes de Oliveira, Bete
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Mendes. As televisões, nos horarários nobres, sacudiram a opinião pública mostrando, num quadro
chocante, aquela senhora chorando copiosamente enquanto era entrevistada. As principais revistas do
país também se solidarizaram com a Deputada. Articulistas de renome condenaram-me com veemência.
Em carta encaminhada ao Presidente da República, Bete Mendes, além de afirmar taxativamente que
fora por mim torturada, mostrava o seu constrangimento por “ter que suportá-lo seguidamente a justificar
a violência cometida contra pessoas indefesas e de forma desumana e ilegal como sendo para cumprir
ordens e levado pelas circunstâncias do momento”.
No Uruguai, onde eu exercia as funções de Adido do Exército junto à Embaixada do Brasil, o
assunto também foi amplamente publicado pela imprensa.
A opinião pública estava estarrecida com o constrangimento a que uma Deputada Federal, como
membro da comitiva oficial do Presidente da República, fora submetida quando encontrou-se, frente a
frente, com o homem que, quinze anos antes, a “torturara”.
Em Montevidéu, fui obrigado a retirar minha filha, de 15 anos, do colégio onde estudava, devido ao
clima de hostilidade que passou a sofrer.
Em Santa Maria, meu pai com 84 anos e minha mãe com 74 recebiam ameaças que levaram o meu
irmão, Coronel Renato Brilhante Ustra, a deixar por alguns dias o Comando da Escola de Educação
Física do Exército, a fim de dar a necessária assistência aos nossos pais.
A imprensa, parlamentares, movimentos em defesa dos Direitos Humanos, associações de classe,
exigiram o meu retorno ao Brasil. Paralelamente, aqueles que combateram o terrorismo eram
apresentados ao país como assassinos e corruptos. Ao mesmo tempo, os subversivos e os terroristas
eram mostrados como pessoas indefesas que sofreram porque lutavam contra a ditadura.
Houve até o caso do ex-terrorista Theodomiro Romeiro dos Santos (Marcos), militante do Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que foi recebido como herói quando regressou do
exterior, onde se refugiara. Theodomiro fora condenado à morte (existia pena de morte naquela ocasião)
porque matou com um tiro na nuca o Sargento da Força Aérea Brasileira, Valder Xavier de Lima, que
ao volante de um jipe o transportava preso. Agora o nosso Sargento Valder, de vítima do terror passara
a ser taxado de agressor de um indefeso.
Com a conivência e a participação da Deputada BETE MENDES fora montada uma das maiores
farsas a que este pais já assistiu.
Para denegrir o Exército, dentre muitos que combateram o terrorismo, fui o escolhido. Um militar que
lutou contra a Guerrilha Urbana em São Paulo, durante quatro anos.
Para a máxima repercussão, não poderia haver ocasião mais oportuna que o aproveitamento da visita
do Presidente da República ao país onde eu exercia as funções de Adido do Exército junto à Embaixada
Brasileira.
Nada melhor do que uma atriz para representar o papel de vítima. Nada melhor do que uma
Deputada Federal para caluniar, escudada nas suas imunidades parlamentares.
A CARTA AO PRESIDENTE
“Que as minhas primeiras palavras sejam de agradecimento a Vossa Excelência pelo honroso
convite com o qual fui distinguida para acompanhar a sua comitiva ao Uruguai. Oportunidade ímpar e
que possibilitou-me o conhecimento e o testemunho do desvelo com que Vossa Excelência trata as
questões maiores da nossa República. Não fosse isso o bastante, tive, ainda, o privilégio de conviver
horas agradáveis com um grupo seleto de autoridades do nosso Pais e, principalmente, de compartilhar
da companhia Inteligente, serena e agradável de dona Marli.
“No entanto, Presidente, não posso calar-me diante da constatação de uma realidade que reabriu em
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