O Fiel Católico
História e implicações da teoria da reencarnação dos espíritos
Posted: 10 Jun 2016 10:47 AM PDT

ESTA ABORDAGEM contempla os aspectos morais, éticos, racionais e lógicos, inclusive matemáticos, envolvidos nos sistemas filosófico-religiosos que adotam como fundamento a teoria da reencarnação. Este será o primeiro de uma série de capítulos de um estudo que pretende explicar em detalhes as diversas razões que tornam a reencarnação uma impossibilidade moral, lógica e mesmo matemática, logo também metafísica. Antes de entrar nas particularidades do assunto, consideramos conveniente publicar a breve história da ideia da reencarnação no mundo...
** Ler o estudo completo
To stop receiving these emails, you may unsubscribe now.
Email delivery powered by Google
Google Inc., 1600 Amphitheatre Parkway, Mountain View, CA 94043, United States
Início
:: Sobre nós
:: Contato
:: Orações
:: Ajude-nos!
:: Assine nossa revista
:: Assine nossa revista digital
História e implicações da teoria da reencarnação dos espíritos
ESTA ABORDAGEM contempla os aspectos morais, éticos, racionais e lógicos, inclusive matemáticos, envolvidos nos sistemas filosófico-religiosos que adotam como fundamento a teoria da reencarnação. Este será o primeiro de uma série de capítulos de um estudo que pretende explicar em detalhes as diversas razões que tornam a reencarnação uma impossibilidade moral, lógica e mesmo matemática, logo também metafísica. Antes de entrar nas particularidades do assunto, consideramos conveniente publicar a breve história da ideia da reencarnação no mundo.
A reencarnação na Antiguidade
Ganesha, o deus-elefante da fortuna para os hindus, é descrito nas Upanishads
A crença na reencarnação surgiu no norte da Índia, entre 1.000 e 600 a.C., na mesma época em que Davi e seus descendentes governavam Israel, até a queda de Jerusalém. Pelo fato de ser o Hinduísmo a grande fonte e origem de todas as religiões da chamada Tradição Oriental (que por sua vez o são de diversas das seitas surgidas no Ocidente), a maior parte dessas doutrinas se encarregou de repassar, por todo o mundo, a teoria de que a alma habita diversos e diferentes corpos, através das gerações, no transcorrer da História.
Já no século VI antes de Cristo, e curiosamente quase ao mesmo tempo, duas novas religiões surgiram na Índia, ambas egressas ou dissidentes do Hinduísmo: uma é o Jainismo, fundado pelo príncipe indiano Nataputa Vardamana (cerca de 599 a 537 a.C.), conhecido como "mahavira" (grande herói). A outra é o Budismo, fundado por Siddharta Gautama, conhecido como o Buda Sakiamuni (563-483 a.C.) ou "buda histórico". Estes dois fundadores foram contemporâneos, portanto, dos profetas bíblicos Ageu, Zacarias e Malaquias.
Buda? Não, Mahavira
De fato, parece que a maior preocupação de ambos –, tanto do Mahavira quando do Buda –, era encontrar um jeito de “atravessar o rio” que separa a vida temporal, fútil e ilusória que vivemos neste mundo físico, isto é, a vida n"os domínios de 'Maya'" (a ilusão dos sentidos que contém Samsara, o ciclo interminável de renascimentos) ao Moksha (a libertação final deste ciclo e a entrada numa esfera de existência mais elevada, puramente espiritual). Em todo caso é explícito, na tradição e nos escritos dessas duas doutrinas, que a crença na reencarnação entrou quase que exclusivamente por uma questão cultural, isto é, por hábito e cultura em que surgiram, muito mais do que como afirmação doutrinária. O Buda preferia não falar sobre o assunto, e em diversas ocasiões escolheu o silêncio em lugar de partir para explicações a respeito do que acontece depois da morte física. Era esta a sua postura quanto a tudo que não pudesse ser “experimentado”, através do estudo, da vivência pessoal e da meditação profunda. Teria dito ele:
“Não creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém, que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas; a isso aceitai como verdade. Por isso, pautai vossa conduta."Frase atribuída a Sidharta Gautama (Buda Sakiamuni)
Além disso, ao contrário do que se pensa (e se ensina por aí), a crença na reencarnação não é unanimidade entre os budistas e, mesmo entre as linhas do budismo que a aceitam, a noção que têm de "reencarnação" é algo completamente diferente daquilo que afirma Kardec, por exemplo. Dúvidas podem ser tiradas em páginas budistas como esta, esta e esta, por exemplo.
“Em primeiro lugar, a reencarnação não é um conceito budista. É um conceito ocidental moderno inventado pelos socialistas utópicos do século XIX que foi adotado pelos espíritas e que as pessoas projetam equivocadamente no Budismo. Em segundo lugar, não existe no Budismo o conceito de espírito. Sendo o homem um ser impermanente e interdependente, não pode haver algo como um espírito autônomo e perene. O homem é um ser composto de agregados físicos e psíquicos impermanentes e interdependentes, sujeitos a contínuas transformações, como o é o próprio ser humano.
Textos budistas falam em vidas sucessivas condicionadas pelos atos das vidas anteriores. Mas nem todos os budistas acreditam nisso ao pé da letra, e os que o fazem falam em transmigração ou renascimento, nunca em reencarnação. Para o Budismo Shin, trata-se de um discurso simbólico e mitológico a descrever os desvarios e devaneios da mente ignorante e egoísta ao longo desta mesma vida. O Buda considerava a especulação sobre a vida depois da morte como inútil e irrelevante para o objetivo a que se propunha – libertar o homem do sofrimento –, já que se trata de um assunto além das capacidades de entendimento do homem.”Rev. Ricardo Mário Gonçalves [2]
(Instituto Budista de Estudos Missionários, Templo Higashi Honganji)
Pitágoras e Platão
Prosseguindo com a nossa análise histórica, no mesmo século do surgimento do jainismo e do budismo, o filósofo e matemático grego Pitágoras (aprox. 570/571 - 590 a.C.), declarou que a alma era imortal e, depois da morte do corpo, poderia ocupar outro corpo, humano ou animal. Daí vem a palavra metempsicose, de origem grega (μετεμψύχωσις), que significa transmigração.
A maioria das informações sobre Pitágoras de Samos, filósofo e matemático grego jônico, foram escritas séculos depois de sua morte
A fala de Pitágoras representa a primeira vez que a teoria da reencarnação foi mencionada no Ocidente. Isto veio a influenciar outro famoso filósofo grego, Platão (427 - 347 a.C.), a considerar que a alma renascia muitas vezes, até durante 10 mil anos, antes de partir para o convívio com os deuses nos reinos celestiais.
O termo “reencarnação” admitiria, então, várias acepções. Platão retirou esta concepção do confuso universo do orfismo e dos pitagóricos; a terminologia posterior cunhou o termo “metempsicose” para designar sua doutrina acerca da transmigração da alma através de diferentes corpos, mesmo não-humanos. Em "Fedro" (Φαῖδρος – aprox. 370 a.C.)[3], Platão registra sua explicação da origem das almas, a causa de sua "descida" aos corpos físicos e a sua afinidade com o divino. Segundo este diálogo, originariamente, a alma humana vivia junto aos deuses. Assim como a vida divina dos deuses consistiria num movimento ascendente para "o mais alto dos céus", denominado por Platão Hiperurânio (ou a 'planície da Verdade'), o "lugar" onde habitam as puras ideias, a alma humana também avança, com o séquito dos deuses, para esta “planície”, onde se realizaria o ápice da mais elevada contemplação (theorein).
Platão se vale de uma alegoria para explicar a queda da alma deste lugar arcano onde vivia. Compara então a alma a um carro alado puxado por dois cavalos. O cocheiro deste carro é a razão. Enquanto os cavalos dos deuses são bons, os cavalos da alma são de raças diversas, sendo um bom e outro mau. O bom corresponde à parte irascível da alma, o mau identifica-se com a parte apetitiva, sede dos desejos que empurram a alma para o erro e os excessos. A parte irascível, ao contrário, quase sempre se põe de acordo com a razão, resistindo aos ímpetos da parte apetitiva.
Dada esta disposição das almas, como consequência sua “cavalgada” à “planície da Verdade” torna-se muito árdua e, de fato, nem todas conseguem chegar a este paradisíaco Mundo das Ideias, o Hiperurânio. Chocam-se entre si, pisam umas nas outras, e como para o autor as almas têm asas, nesta confusão suas asas se quebram, fazendo com que se precipitem na Terra e unam-se aos corpos. A vida humana neste mundo, então, apresenta-se como decadência, o resultado de um declínio, um declive que não encontraria o seu lugar senão pelo desvio cometido pelas almas que cederam aos seus instintos aviltantes.
Aqui entra a Filosofia. Na concepção de Platão, ela tem um aspecto soteriológico inevitável. As almas que viverem consoantes à Filosofia durante três vidas consecutivas, após três mil anos terão as suas asas restauradas e poderão voltar ao consórcio dos deuses. De maneira geral, porém, todas as almas readquirirão, passados dez mil anos deste ciclo de renascimentos, as suas asas e, consequentemente, o convívio dos deuses.
* * *
Platão, como seria de se esperar, influenciou outros pensadores, que por sua vez insuflaram as imaginações. Eis a breve história da teoria da reencarnação, antes de Cristo. Consideramos importante esclarecê-la antes de entrar nas maiores profundidades deste tema, porque as publicações espíritas geralmente afirmam ou levam a crer que a reencarnação seria uma espécie de unanimidade ou consenso no pensamento religioso universal, desde a Antiguidade. Algumas chegam ao supremo absurdo de, desonestamente e na maior desfaçatez, afirmar como se fosse um "fato histórico" a ridícula mentira de que a própria Igreja, em sua origem, teria aceitado a doutrina da reencarnação.
O "Portal do Espírito", por exemplo – que estamos formalmente denunciando à webpol e ao MP pelos crimes de calúnia, difamação e injúria –, afirma textualmente, sem nenhum pudor, em artigo de Vivaldo J. de Araújo, que "Até meados do século VI, todo o Cristianismo aceitava a reencarnação, que a cultura religiosa oriental já proclamava, milênios antes da era cristã, como fato incontestável (...). Aconteceu, porém, que o segundo Concílio de Constantinopla, atual Istambul, na Turquia, em decisão política, para atender exigências do Império Bizantino, resolveu abolir tal convicção, cientificamente justificada, substituindo-a pela ressurreição...".[4]
A ideia, portanto, de que a reencarnação teria sido crida pela quase totalidade das religiões antigas, sendo consenso geral e praticamente uma certeza ancestral, é totalmente incorreta. Se considerarmos apenas as chamadas três grandes religiões monoteístas do nosso planeta (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) – lembrando que aí se concentra a expressiva maioria da população mundial – e que nenhuma delas prega a reencarnação, seremos obrigados a aceitar que a realidade é bem outra. Também importa saber que, mesmo dentro do Hinduísmo, a principal difusora e representante da crença na reencarnação mundial até hoje, existem e sempre existiram as linhas dvaita, que também não aceitam a reencarnação.
A síntese de tudo o que foi dito até aqui, portanto, se traduz na constatação de um fato incontestável: a reencarnação é uma crença oriental surgida na Índia e difundida pela maior parte das linhas do Hinduísmo e religiões, seitas e filosofias suas derivadas. Ponto. A partir daí, Kardec desenvolveu sua doutrina, na realidade uma mistura do velho reencarnacionismo adornado com expressões pseudocientíficas, uma "roupagem" elitista europeia e elementos principalmente morais do Cristianismo, processo que chamou "decodificação" da própria doutrina, à qual deu o nome "espiritismo". Foi esta a principal via de chegada da crença na reencarnação em Terra Brasilis. Em toda a Europa, Kardec não passa de um ilustre desconhecido; no Brasil, continua sendo visto por muitos como um "sábio" ou mesmo um "grande vulto" da humanidade.
_____
Notas:
1. A popução da Índia, hoje, é a segunda maior do mundo, e caminha para tornar-se a primeira nas próximas décadas. Temos, portanto, aproximadamente 960 milhões de hinduístas no mundo apenas na Índia. – Fonte: Portal 'Mundo Educação', disponível em:
http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/populacao-India.htm
Acesso 8/6/016
2. Consultor de 'O Fiel Católico', Ministro do Dharma no Templo Higashi Honganji de Kyoto, sede central da Ordem Otani de Budismo Shin; pesquisador no Instituto Budista de Estudos Missionários do Templo Nambei Honganji de S. Paulo, tradutor dos textos sagrados budistas a partir dos originais, e autor de 'Textos Budistas e Zen Budistas', 'O Culto de Amida no Japão Medieval', 'A Ética Econômica budista no Japão Pré-Industrial' e 'O Caminho do Despertar', publicados por editoras diversas. Citado em artigo de DUARTE, Joana, disp. em:
https://prezi.com/4ovh56limlio/budismo/
Acesso 10/6/016
3. Obra escrita por Platão em forma de diálogo entre o protagonista, Sócrates, e Fedro, recorrente interlocutor, possivelmente do mesmo período de 'A República' e 'O Banquete'.
4. A criminosa mentira encontra-se em:
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/religiao/porque-a-reencarnacao.html
Acesso 10/6/016.
_________________
Fontes e bibliografia:
• REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga: II Platão e Aristóteles, 1994.
• BOWKER, John. Para Entender as Religiões, São Paulo: Ed. Ática, 1997.
• NICHOLS, Larry A. Nichols. Dicionário das Religiões, São Paulo: Vida, 2000.
• CAMPOS, Sávio Laet de Barros. Reflexão acerca do conceito de 'metempsicose' em Platão. Universidade. Federal de Mato Grosso, artigo dispo. em:
http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/metempsicose_platao.pdf
Acesso 10/6/016 www.ofielcatolico.com.br






















